• Dr Aidê Fernandes

Relacionamento abusivo: da devoção à devoração do outro



O cinema já explorou a exaustão algumas “histórias de amor” que acabam (ou sugerem) em tragédia e nos mostram perfis de parceiros envolvidos nem sempre muito adequados na convivência amorosa (“Atração Fatal”, “Dormindo com o inimigo” são alguns exemplos). Atualmente uma novela da Rede Globo (“O outro lado do Paraíso”) novamente propõe abordar esse tema, através dos personagens “Clara” e “Gael”, que possibilita a sociedade discutir e refletir sobre uma questão muito velada e/ou negada - o estupro marital. Isso, sem dúvida, vai nos proporcionar a oportunidade de questionar (e quem sabe prevenir) sobre a violência contra a mulher num contexto onde não se espera tal fato: dentro de um casamento. Em outros artigos já postados (“Ficar, namorar e casarpara ter raiva do outro”, “A escolha do parceiro amoroso” e “Fuja do amor-romântico”) procurei esclarecer os fenômenos da cumplicidade amorosa e suas nuances. Aqui proponho abordar as características e o processo que ocorre num sujeito (independente do gênero) a ponto de tratar ao outro desta forma, ou seja, oprimindo aquele que ama. Como é possível e por quê?

Já dissemos no artigo “A escolha do parceiro amoroso” o quanto a jornada de descoberta do “objeto de amor” pode ser heróica e baseada em modelos aprendidos desde da primeira infância, que “impulsiona” essa busca pelo outro. O sujeito, durante sua adolescência, aprende a procurar fora do ambiente familiar (exogamia) alguém que possa satisfazê-lo da melhor forma possível, conseqüentemente surge o fenômeno inicial fundamental em qualquer relacionamento amoroso – a paixão. Aquele estado “inebriante” em que a possibilidade de estar com ou outro é vivenciada como a “harmonia perfeita”. Tudo que esteja relacionado a esse outro é idealizado e causa uma sensação intensa de satisfação pela sua existência a ponto de tentar convencer todos o quão “maravilhoso” é esse outro. Como diria o psicanalista Dr. Gurfinkel, “o apaixonado é um garoto propaganda de seu objeto” adotando comportamentos que podemos considerar como proselitismo (atividade através da qual um indivíduo se empenha em fazer adeptos, e a converter os outros às suas próprias crenças). Daí se explica algumas atitudes dos adolescentes, inclusive sua produção “artística”, seja em prosa, poesia ou música, onde fica explicito toda a devoção que um indivíduo pode ter por outra pessoa.

Essa dedicação pelo outro é tamanha que se prestarmos atenção mais de perto vamos perceber que, apesar da devoção, o relacionamento se dá com uma “imagem desse outro”, ou seja, a relação do sujeito é consigo mesmo (ou objeto idealizado). Por outro lado, num processo natural de amadurecimento desse vínculo, a confrontação com a realidade demonstra o quanto essa idealização está presente (e inadequada). Nesse caso, gradativamente surge uma cumplicidade (inconsciente e consciente) entre duas pessoas. Assim o sujeito também é frustrado pelo outro (sobre esse processo sugiro a leitura do artigo “Ficar, namorar e casar para ter raiva do outro”) havendo à possibilidade de um verdadeiro relacionamento amoroso, na medida em que, apesar das discordâncias, faz-se a opção por construir “projetos” a dois.

Infelizmente algumas pessoas no seu processo pessoal de “amadurecimento” desenvolvem o que chamamos de “alterações do caráter”, ou seja, possuem “defeitos” na sua maneira de se adaptar ao meio e suas exigências, por exemplo, as constantes frustrações. Abordamos parte desse tema no artigo “Ciúmes, como prova de amor é uma tremenda bobagem” ao pontuarmos, por exemplo, a necessidade de aprendermos a ser (com serenidade) o “terceiro excluído” nas relações. Ou seja, conviver com o desconforto, em alguns momentos, quando o outro opta por outra satisfação, que não seja a nossa presença, sem um sofrimento exagerado.

O fato é que existem sujeitos que ao serem “contrariados” não aceitam essa situação passando a agredir o outro por ser o outro (ou simplesmente “uma pessoa”, e não mais o “objeto idealizado”). Há casos em que a não aceitação produz atitudes que explicitam a intenção de devoração do outro, pois para o sujeito, anteriormente apaixonado, ele (o outro) não pode existir em sua forma real. Daí a violência e ações contra a integridade física e emocional do parceiro.

Um dos melhores filmes, a meu ver, para compreendermos esse fenômeno (da devoção à devoração do outro) chama-se “Encaixotando Helena” (1993), dirigido por Jennifer Chambers Lynch. Neste, didaticamente, é possível compreender o quanto um relacionamento amoroso pode transformar-se numa prisão onde um dos envolvidos perde sua capacidade de ir e vir, de ser e de existir, ou melhor, é literalmente encaixotado por quem antes ele acreditava que o amava.

" "

Desde que culturalmente associamos o casamento ao amor-romântico, tema abordado em outro artigo anteriormente (Fuja do amor-romântico), alguns fenômenos interpessoais tornaram-se mais frequentes e explícitos nas relações amorosas. Além disso, o sofrimento dos amantes também ficou mais presente e evidente, por exemplo, não é incomum os jovens terem maneiras, comportamentos, ações e reações nos namoros que não favorecem os crescimentos deles enquanto pessoas. Daí a estranheza, ou seja, apesar das frustrações recorrentes, aparentemente adotam um modelo único de namoro (ou perfil de parceiro), mesmo que a vida ofereça a oportunidade de duplas diferentes. Por outro lado, salientam achar esquisito que esse parceiro tenha atitudes muito semelhantes ao anterior. Nesse caso, fica a dúvida: até que ponto não houve uma indução, sem querer, da conduta alheia? O fato é que ao olharmos com cuidado essa “história de namorar” percebemos uma tendência à repetição de quem se aventura a experimentá-la. Por quê?

Para responder essa e outras questões pertinentes a esse tema, é preciso retomar e compreender o percurso percorrido por nós, seres humanos, até o namoro. Por volta dos 2 a 3 anos (segundo a psicanálise) passamos por um fenômeno psíquico muito importante que interfere em nossa capacidade de conviver com o outro. Começamos a perceber a figura materna associada à figura paterna e a nós mesmos formando um triângulo amoroso, sendo que nesse nosso “primeiro romance”, já somos obrigados a vivenciar a “agonia” de ser o “terceiro excluído” em alguns momentos. Durante alguns anos ficamos mergulhados no tal “complexo de Édipo” e, rigorosamente, aprendendo a amar e ter raiva do outro por não ser ou fazer aquilo que esperamos dele (seja papai e/ou mamãe). De certa forma inicia-se assim a eterna luta interna da “Cultura” contra a “Natureza” onde gastamos muita energia para sobreviver virando gente.Nesse caminho vamos adquirindo modelos, valores, características, crenças e referências em todos os sentidos. Montamos, inconscientemente, um quebra-cabeças (ou mapa afetivo) de peças que acreditamos serem necessárias em uma pessoa para que nos agrade. Acredite, desde aspectos físicos, passando pelos gestos, idéias e qualidades, “criamos”, sem nem perceber, nosso modelo de parceiro amoroso idealizado. E assim caminhamos até o inicio da adolescência quando novamente revivemos nosso complexo interno, além da luta entre a “Cultura” e a “Natureza”, agora revivida com toda a energia e possibilidades de “explosão”, sejam dos hormônios ou dos valores e crenças reconhecidos. A particularidade aqui é que vamos buscar fora de casa (exogamia) as possibilidades de romance, obviamente, quer queira ou não, contaminada pelo modelo adquirido inicialmente.

Saliente-se, então, que o ser humano se aventura a namorar carregando uma rica história anterior de aquisições e aprendizados sobre a convivência com o outro. Nesse processo busca construir uma cumplicidade inconsciente onde possa lidar com suas angústias, defesas, desejos, sonhos e necessidades, além de estar no mundo o mais satisfeito possível. Ou seja, nosso parceiro, é, antes de qualquer coisa, um cúmplice da heróica caminhada de ser e estar na realidade. Também é fato que estes encaixes dos modelos construídos internamente são inicialmente inconscientes e, portanto, disfarçam dificuldades e/ou se propõem a elaborar conflitos não resolvidos. E sendo assim, nos impõem repetições de tentativas de solução destes, agora a dois. Deste modo fica claro que a escolha do parceiro não é aleatória ou ao acaso. É obvio que ao primeiro contato, quando alguém nos chama a atenção, estas forças inconscientes estão atuando e definindo a nossa aproximação ou não. Nesse caso, é claro que o tal “amor à primeira vista” ou mesmo a “antipatia gratuita” são, na verdade, encantamentos ou desencantamentos, frutos dessas identificações do outro com nosso modelo interno ou não. Outro esclarecimento seria aquelas pessoas que, apesar de meia dúzia ou mais de relacionamentos amorosos, vivem um cotidiano semelhante, com as mesmas frustrações e queixas a respeito do outro. O parceiro, de certa forma, tem sempre o mesmo perfil (podendo até ser por indução). Infelizmente, estas pessoas estão presas a um modelo previamente adquirido e sem saber como fazer e estar com alguém, de maneira diferente.

A principio, estes fatores podem parecer bastante deterministas e/ou reducionista das nossas possibilidades, mas não é bem assim. Admitir este percurso, acolhendo a agonia inevitável, não deixa de ser a saída, pois a aventura de sonhar com um projeto de vida a dois, mesmo que provisoriamente, seja por alguns meses, ou anos, passa pela conversa, reflexão e descoberta, em ambos, do potencial de reinvenção da realidade conjunta.

Tornar a cumplicidade inconsciente numa cumplicidade consciente é uma forma de viver o verdadeiro amor, pois este precisa de história e (re) construções conjuntas e diárias.

" "

Quanto mais um relacionamento amoroso se baseia no amor-romântico, mais ele se torna sadomasoquista, portanto, quanto mais apaixonado está um amante mais ele sofre e faz o outro sofrer.Já abordei um pouco essa ideia em outro artigo onde pontuava o quanto os parceiros amorosos fomentam o sentimento de raiva na relação por conta de não aceitar o outro ser o outro. Portanto, quanto a isso, sugiro a leitura do mesmo (“Ficar, namorar e casar para ter raiva do outro”), que, a meu ver, poderia esclarecer melhor esse fenômeno, além de deixar mais claro os caminhos tortuosos que a nossa sociedade vem dando aos casais. Mas, cá com meus botões refletindo: de onde vem essa ligação do amor-romântico com o sofrimento?

Saliente-se que o chamado “amor-romântico” é uma invenção cultural, sediada principalmente na sociedade ocidental com suas singularidades. Nascido no sec. XVII, cujo personagem Don Juan tornou-se um dos seus ícones representativos. No caso, passou-se a amar o ato de amar, ou seja, não se amava o outro e sim, o amor. O objeto de amor não era o mais importante, mas sim o sofrer e até morrer por amor. As histórias de “Tristão e Isolda”, “Romeu e Julieta” descrevem poeticamente o cotidiano dessa relação onde às impossibilidades são inúmeras e nem por isso diminuíam o desejo de vivenciá-las. E assim ele (o amor-romântico) surgiu cheio de sonhos, fantasias, porém rígido e com obstáculos a serem superados. Por outro lado, também é preciso salientar que até então as pessoas não se casavam por amor. Isso é uma coisa recente já que casamento era uma coisa muito "séria" para se misturar com amor. De fato, as pessoas moravam no campo, junto a várias gerações da mesma família e assim se sentiam amparadas. Casar era uma questão econômica e política, não havia romance, nem expectativa de satisfação sexual e daí a relação durava a vida inteira. Não se observavam decepções ou motivos para separações. Com a Revolução Industrial nasceu à família nuclear (pai, mãe e filhos), pois as fábricas e escritórios atraiam os homens para o trabalho nos centros urbanos. Não sendo possível ficar sozinhos na cidade e para suportar esse processo, surgiram os casamentos por amor (alianças onde poderiam satisfazer, agora, suas necessidades afetivas). O auge dessa história veio tempos depois, no ideal do amor romântico no sec. XIX e inicio do sec. XX, onde o sexo era inseparável do amor e do laço conjugal. Assim a cultura nos deu a ilusão da satisfação afetiva plena, protegendo- nos contra a solidão, com a possibilidade de constituir patrimônio e criação de uma prole. Mas, para isso, era necessário ir a um altar e jurar fidelidade “até que a morte separasse os parceiros de amor“.

O grande problema ai estabelecido é que ela (a cultura) não considerou nossos instintos, que, como sempre não somente pedem passagem, atropelam. Por exemplo, nossa “natureza” é poligâmica, ou seja, instintivamente não fomos preparados para um só parceiro amoroso ao longo da vida. Aliás, a “cultura” monogâmica faz parte de apenas 16% das civilizações humanas, ou seja, somos minoria e, portanto, menos adaptado a nossa realidade interna. Portanto, por mais que se valorize um juramento e/ou palavra dada, é preciso sempre admitir que se esteja indo contra uma força instintiva enorme que, obviamente, ao ser contida traz conseqüências no comportamento adotado cotidianamente. Nesse caso, é pertinente que a tal satisfação afetiva plena propalada pela tal “aliança” conjugal criada não é verdadeira e muito menos natural. Sendo assim, ou se faz a opção de vários parceiros de forma seriada (daí os divórcios) ou se constrói o casamento único, também, baseado em outras necessidades, desejos e opções (não afetivas). Saliente-se que, considerando não ser uma opção natural, ambos os parceiros precisam estar cientes e de acordo com a renúncia feita. Dai não ser ético a hipocrisia ou a mentira nas combinações propostas. A não ser que você prefira “fazer de conta que ama o outro acima de todas as coisas e o outro fazer de conta que acredita”. Cá entre nós, isso é o próprio amor-romântico.

Concluindo, cabe aos casais redescobrirem, no cotidiano, as verdadeiras razões de sua cumplicidade e/ou necessidade de estarem juntos, compreendendo os fatores culturalmente estabelecidos para que possam se reinventar “a dois” a cada dia, apesar das determinações instintivas. Essa é uma caminhada heroica, portanto não é romântica, com chances de se tornar amorosa.

1 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo