• Dr Aidê Fernandes

O que é o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)?



Alguns transtornos mentais foram especialmente “explorados” pela Mídia, caindo na curiosidade do “senso comum” das pessoas. Por um lado, acho bem interessante esse processo, haja vista a possibilidade de estimular os portadores a procurarem ajuda do profissional especialista, por outro, infelizmente, também facilita o “autodiagnostico” ou “diagnóstico do vizinho”, sempre carregados de preconceitos, equívocos e/ou exageros. Em relação aos transtornos obsessivo-compulsivo (TOC), isso tem sido cada vez mais comum: séries de televisão, filmes, admissão pública de celebridades, etc. vêm contribuindo sobremaneira para a divulgação deste problema mental. Cabe aqui o primeiro alerta de uma confusão bastante comum dos leigos: comportamento obsessivo-compulsivo não é o mesmo que o transtorno em si, pois este sintoma pode aparecer em quadros clínicos bastantes diversos (quadros neurológicos, síndromes autistas, retardo mental, sequelas neurofisiológicas e, obviamente, os decorrentes de sofrimento psíquicos, antigamente chamados de neuróticos). Portanto, o sintoma isolado, ou não avaliado dentro de um contexto clínico específico (conforme abordei em outro artigo “O que causa os transtornos mentais nas pessoas”), não necessariamente indica a existência do TOC.Sendo assim a proposta terapêutica costuma ser bastante diversa em cada uma das situações clínicas descritas anteriormente, daí a indispensável necessidade do diagnóstico adequado e responsável a ser feito.

Em relação ao TOC, propriamente dito, saliente-se que o fenômeno obsessivo e decorrente do compulsivo e vice-versa, seja pensamento ou comportamento. Ou seja, a ideia estranha na mente produz a ação repetitiva, ou essa ação (ou ritual) recorrente alivia a falta de controle (e consequente ansiedade) sobre a ideia que invadiu a mente. Essa integração “idéia obsessiva-comportamento compulsivo” prejudica significativamente a qualidade de vida de seu portador (seja em relação ao tempo para realizar tarefas simples da vida diária, convivência social, organização da casa, andar na rua, etc.). Portanto, na avaliação inicial torna-se fundamental perceber e analisar este comprometimento e decorrente sofrimento trazido ao paciente. Há também um constrangimento pessoal em admitir e/ou falar sobre o problema, sendo assim, os portadores, às vezes, demoram anos para procurar ajuda (alguns estudos falam em 4 a 5 anos, em média, até chegar ao psiquiatra). Assim sendo, ao receber o paciente no consultório, é preciso criar um clima de confiança onde toda a estranheza das ideias e comportamentos possam ser manifestados sem um pré-julgamento ou pontuações irônicas e desrespeitosas. Cabe salientar aqui essa sugestão também aos familiares e amigos.

Principais sinais e/ou sintomas:

Pensamentos recorrentes, impulsos ou imagens que são intrusivas ou inapropriadas ou causam aumento da ansiedade (sendo que os pensamentos não são simplesmente preocupações sobre problemas reais); tentativa de ignorar/suprimir/neutralizar estes pensamentos com outros pensamentos ou ações; reconhecimento de que os pensamentos ou impulsos são frutos de sua própria mente; comportamentos repetitivos ou atos mentais que a pessoa sente que têm de cumpri-los rigidamente e a qualquer custo; a realização destes comportamentos reduzem ou previnem um mal estar geral ou ansiedade (sendo que estes são aumentados se não forem realizados); reconhecimento de que tanto os comportamentos como as ações são excessivos e irracionais e, principalmente, causam mal estar e tem repercussão disfuncional na vida dos portadores.

Principais dicas e informações:

Os fenômenos (sejam compulsivos ou obsessivos) são decorrência de um alto nível de ansiedade presente, portanto um sujeito “extremamente” controlado e metódico em sua conduta, porém com estes indícios, sugere o transtorno (mesmo que o paciente custe admiti-lo).

A não existência de um sofrimento mental com as obsessões e/ou compulsões, após exame psíquico feito pelo especialista, pode excluir o TOC, mas, por outro lado, pode indicar outros problemas mentais.

A demora em procurar a ajuda profissional pode, cada vez mais, inviabilizar a convivência social do paciente.

Geralmente, nos portadores de TOC, não há um comprometimento cognitivo-intelectual. Pelo contrário, não é incomum serem os mesmos bastante inteligentes e/ou cultos.

Este transtorno pode ocorrer na infância, adolescência ou idade adulta.

Não é incomum haver uma resistência do paciente em procurar ajuda, comprometendo seu prognóstico e evolução. Por outro lado, cabe dizer que a qualidade de vida dos seus portadores pode melhorar significativamente quanto antes iniciar a abordagem terapêutica correta.

Proposta de tratamento e cuidado adequado:

Conforme a etiologia do comportamento obsessivo-compulsivo há um tratamento adequado a ser feito (seja no sentido medicamentoso ou psicológico). Portanto, cuidado para não induzir o diagnóstico incorreto de TOC ás pessoas.

Há várias classes de medicações possíveis de serem utilizadas, conforme as singularidades clínicas percebidas.

Provavelmente, estas medicações serão usadas a médio e longo prazo. Por outro lado, a grande maioria delas não causa dependência. Porém é preciso o controle clínico regular e frequente desse uso.

A associação da abordagem medicamentosa com a psicológica é a proposta terapêutica mais eficiente.

As abordagens psicológicas comportamentais costumam trazer alivio mais imediato aos sintomas por conta da maneira como “trabalham” o pensamento em relação à conduta.

A perda da capacidade de controle sobre os impulsos, ideias e comportamentos decorrentes do quadro clínico é o principal fator desencadeante do sofrimento. Por outro lado, a recuperação dessa capacidade é observada com o tratamento trazendo alivio ao paciente.

Em alguns casos, é necessário haver também a orientação dos familiares e parceiros amorosos esclarecendo as singularidades do quadro clínico e o sofrimento do paciente, pois não é uma questão de simples “boa vontade” ou não do mesmo.

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