• Dr Aidê Fernandes

Distimia: o mau humor constante no cotidiano



Às vezes, recebo no consultório pessoas que se dizem mau humoradas e pessimistas há longos anos. Questionam o cotidiano social de uma maneira geral e se dizem extremamente negativas e sem esperança na vida ou nas pessoas. Não admitem ideias de suicídio (por questões de “coragem” ou religiosas, ou, até mesmo pela preocupação com alguém próximo de si afetivamente), mas chegam a pensar que se viessem a morrer ou sofrer um acidente não seria má ideia. Costumam manter um semblante fechado, com caras de poucos amigos e tendem ao isolamento social.

Já houve situações de estarem em tratamento psicológico há algum tempo, porém sem uma melhora relevante em seu comportamento ou visão de mundo. Também, por outro lado, estavam em uso de antidepressivos e ansiolíticos (geralmente prescritos por colegas clínicos e/ou não especialistas) e sem uma melhora clínica significativa. Ou seja, mesmo aqueles que se dizem ou achavam estar em tratamento, há anos, mantém sua saúde mental comprometida e caminham na vida como se uma “nuvem negra” estivesse sobre suas cabeças a todo o momento.

Nestes casos, estas pessoas são portadoras de um tipo de depressão chamada de distimia. Apesar de não ser um grave transtorno mental,no sentido de sintomas e/ou desorganização psíquica relevante, sem dúvida traz um sofrimento e comprometimento da qualidade de vida de seu portador, merecendo tratamento e cuidados especializados.

Principais sinais e sintomas:

O quadro clínico é similar à depressão propriamente dita, porém em grau ou relevância clínica menor e, portanto, com pouca intensidade sobre o psiquismo da pessoa. A característica fundamental é seu tempo de evolução, ou seja,com pelo menos dois anos de existência e sem períodos de melhora: ideação pessimista, de morte e/ou autoextermínio, sentimento de culpa exacerbado, fadiga, perda do interesse generalizado, descuido com a higiene pessoal, sono perturbado (geralmente acordam a noite a não conseguem dormir mais), lentidão psicomotora, sensação de angústia constante, dificuldade de concentração, alteração do apetite, autoconfiança bastante comprometida e perda de prazer nas atividades que antes eram agradáveis. Os portadores desse transtorno também apresentam altas taxas de faltas no trabalho, comparáveis as taxas de abstenção devido as cardiopatias – uma das causas mais comuns no mundo inteiro.

Informações e dicas relevantes:

O mau humor é natural e esta relacionado tanto as exigências estressantes externas,como as dificuldades internas em lidar com as situações do dia a dia. Porém, este estado não pode ser constante e tende a mudar para uma condição agradável (bom humor) acompanhando as conquistas externas e satisfações internas diárias. Ou seja, o humor oscila conforme o cotidiano se apresenta. A distimia não é preguiça, fraqueza de personalidade ou “azar” na vida. É um transtorno mental e tem tratamentos efetivos. O quadro clínico tem uma duração mínima de dois anos de evolução, e, às vezes por períodos ainda maiores e/ou a sensação de que o sujeito portador “nunca esteve diferente”. O fato do deprimido não ter a efetiva ação suicida não exclui a necessidade da avaliação psiquiátrica, além disso, se uma pessoa tiver constantes “vontades de sumir”, sensação de desesperança e ideias de morte merece uma avaliação criteriosa das causas e características clínicas presentes. Algumas pessoas estão em psicoterapia por serem muito pessimistas e desesperançadas na vida, não percebem ou manifestam uma resposta clínica satisfatória. Nesse caso, cabe ao profissional considerar a possibilidade da abordagem medicamentosa concomitante.

Propostas de cuidado adequado:

Os estudos mostram que o tratamento medicamentoso associado ao psicoterápico é a abordagem mais eficiente para estes casos. Muito melhor que um dos dois isoladamente, ou seja, somente o uso do antidepressivo ou acompanhamento psicoterápico. O distímico é um sujeito que anda na vida constantemente com óculos escuros, ou seja, é preciso reaprender a avaliar seu cotidiano sem a contaminação da doença, ou visão “escurecida” sobre seu ambiente e si mesmo. Os antidepressivos são eficazes na remissão dos sintomas, porém, geralmente são utilizados em doses maiores, apesar da intensidade menor do quadro clínico. Saliente-se que o controle clínico é fundamental para prevenir e/ou orientar quanto aos efeitos medicamentosos a médio e longo prazo. Não se usa antidepressivos sem o controle regular do especialista (psiquiatra). É preciso sempre estar atento às limitações da ação medicamentosa, pois, alguns comportamentos e/ou soluções de problemas não dependem do remédio em si. A psicoterapia pode ajudá-lo a aprender sobre a sua condição mental, sentimentos, pensamentos e comportamentos. É um importante tratamento para adquirir novas estratégias e habilidades de enfrentamento do estresse do dia a dia.


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