• Dr Aidê Fernandes

A escolha do parceiro amoroso


Desde que culturalmente associamos o casamento ao amor-romântico, tema abordado em outro artigo anteriormente (Fuja do amor-romântico), alguns fenômenos interpessoais tornaram-se mais frequentes e explícitos nas relações amorosas. Além disso, o sofrimento dos amantes também ficou mais presente e evidente, por exemplo, não é incomum os jovens terem maneiras, comportamentos, ações e reações nos namoros que não favorecem os crescimentos deles enquanto pessoas. Daí a estranheza, ou seja, apesar das frustrações recorrentes, aparentemente adotam um modelo único de namoro (ou perfil de parceiro), mesmo que a vida ofereça a oportunidade de duplas diferentes. Por outro lado, salientam achar esquisito que esse parceiro tenha atitudes muito semelhantes ao anterior. Nesse caso, fica a dúvida: até que ponto não houve uma indução, sem querer, da conduta alheia? O fato é que ao olharmos com cuidado essa “história de namorar” percebemos uma tendência à repetição de quem se aventura a experimentá-la. Por quê?

Para responder essa e outras questões pertinentes a esse tema, é preciso retomar e compreender o percurso percorrido por nós, seres humanos, até o namoro. Por volta dos 2 a 3 anos (segundo a psicanálise) passamos por um fenômeno psíquico muito importante que interfere em nossa capacidade de conviver com o outro. Começamos a perceber a figura materna associada à figura paterna e a nós mesmos formando um triângulo amoroso, sendo que nesse nosso “primeiro romance”, já somos obrigados a vivenciar a “agonia” de ser o “terceiro excluído” em alguns momentos. Durante alguns anos ficamos mergulhados no tal “complexo de Édipo” e, rigorosamente, aprendendo a amar e ter raiva do outro por não ser ou fazer aquilo que esperamos dele (seja papai e/ou mamãe). De certa forma inicia-se assim a eterna luta interna da “Cultura” contra a “Natureza” onde gastamos muita energia para sobreviver virando gente.Nesse caminho vamos adquirindo modelos, valores, características, crenças e referências em todos os sentidos. Montamos, inconscientemente, um quebra-cabeças (ou mapa afetivo) de peças que acreditamos serem necessárias em uma pessoa para que nos agrade. Acredite, desde aspectos físicos, passando pelos gestos, idéias e qualidades, “criamos”, sem nem perceber, nosso modelo de parceiro amoroso idealizado. E assim caminhamos até o inicio da adolescência quando novamente revivemos nosso complexo interno, além da luta entre a “Cultura” e a “Natureza”, agora revivida com toda a energia e possibilidades de “explosão”, sejam dos hormônios ou dos valores e crenças reconhecidos. A particularidade aqui é que vamos buscar fora de casa (exogamia) as possibilidades de romance, obviamente, quer queira ou não, contaminada pelo modelo adquirido inicialmente.

Saliente-se, então, que o ser humano se aventura a namorar carregando uma rica história anterior de aquisições e aprendizados sobre a convivência com o outro. Nesse processo busca construir uma cumplicidade inconsciente onde possa lidar com suas angústias, defesas, desejos, sonhos e necessidades, além de estar no mundo o mais satisfeito possível. Ou seja, nosso parceiro, é, antes de qualquer coisa, um cúmplice da heróica caminhada de ser e estar na realidade. Também é fato que estes encaixes dos modelos construídos internamente são inicialmente inconscientes e, portanto, disfarçam dificuldades e/ou se propõem a elaborar conflitos não resolvidos. E sendo assim, nos impõem repetições de tentativas de solução destes, agora a dois. Deste modo fica claro que a escolha do parceiro não é aleatória ou ao acaso. É obvio que ao primeiro contato, quando alguém nos chama a atenção, estas forças inconscientes estão atuando e definindo a nossa aproximação ou não. Nesse caso, é claro que o tal “amor à primeira vista” ou mesmo a “antipatia gratuita” são, na verdade, encantamentos ou desencantamentos, frutos dessas identificações do outro com nosso modelo interno ou não. Outro esclarecimento seria aquelas pessoas que, apesar de meia dúzia ou mais de relacionamentos amorosos, vivem um cotidiano semelhante, com as mesmas frustrações e queixas a respeito do outro. O parceiro, de certa forma, tem sempre o mesmo perfil (podendo até ser por indução). Infelizmente, estas pessoas estão presas a um modelo previamente adquirido e sem saber como fazer e estar com alguém, de maneira diferente.

A principio, estes fatores podem parecer bastante deterministas e/ou reducionista das nossas possibilidades, mas não é bem assim. Admitir este percurso, acolhendo a agonia inevitável, não deixa de ser a saída, pois a aventura de sonhar com um projeto de vida a dois, mesmo que provisoriamente, seja por alguns meses, ou anos, passa pela conversa, reflexão e descoberta, em ambos, do potencial de reinvenção da realidade conjunta.

Tornar a cumplicidade inconsciente numa cumplicidade consciente é uma forma de viver o verdadeiro amor, pois este precisa de história e (re) construções conjuntas e diárias.

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